Chico Buarque

"Canta, canta uma esperança / Canta, canta uma alegria / Canta mais..."

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Certa época


Por volta do dia 31 de março de 1964 eu estava brincando no quintal de casa numa Feira de Santana que não existe mais fora de minhas lembranças enquanto ouvia no rádio notícias acerca de passeatas, pessoas na rua, um movimento qualquer que em minha meninice era impossível compreender. Nem mesmo as tentativas de um professor ativista no colégio, tempos depois, foi capaz de me abrir a cabeça para os acontecimentos políticos do país, que se debatia sob uma ditadura cruel. Somente quase vinte anos depois, já na faculdade, é que eu tomaria pé da situação e tomaria partido junto com os colegas nas manifestações, em meio à fúria da soldadesca... Mas tudo já é passado, mas um passado que teima em voltar, talvez porque não tenha sido necessariamente exorcizado... Eis que apaixonado como estou pela música do português José Afonso, descubro que este intérprete, tendo vivido as agruras da ditadura salazarista bem como a luta que resultou na Revolução dos Cravos, também cantou o terror experimentado por alguns brasileiros e lusitanos, especialmente Alípio de Freitas, um padre português que foi revolucionário no Brasil (leia mais aqui), cujo nome dá título a uma bela canção de Zeca. Vejam a letra:

Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com campanheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas

Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Terceiro elevador de fevereiro

E lá se vai Pery Ribeiro, para engrossar o coro da Bossa Nova no Além... Com alguma certeza, penso que Flávio Cavalcanti esteja contente com sua chegada. Pery era habitué do Programa Flávio Cavalcanti, que eu assistia nos anos 70/80. Meu amigo A. C. Limongi, produtor musical dos bons e responsável pelos célebres encontros entre Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai; Elomar, Turíbio Santos e Xangai; Elomar e Arthur Moreira Lima, contou-me certa vez um episódio passado nos bastidores de um dos programas apresentados por Flávio Cavalcanti - "Um instante, maestro!". Segundo Limongi, muitos cantores temiam se apresentar ali porque Flávio criticava impiedosamente certos discos e músicas, quebrando no ar os "bolachões" (discos LP) e compactos, logo após a análise de um corpo de jurados. Numa dessas vezes, um dos convidados era o cantor baiano Waldick Soriano, que fazia sucesso com "Eu não sou cachorro não". Flávio não gostava de músicas consideradas "bregas" e era certo que o disco de Waldick também seria quebrado. Mas antes do programa entrar no ar, Waldick - diz Limongi - avisou Flávio Cavalcanti: "Se você quebrar meu disco, eu lhe acabo no pau!". O resultado foi que Waldick cantou e o disco não foi quebrado. Quanto a Pery Ribeiro, vamos homenageá-lo relembrando sua música "Laura", que por sua vez homenageia minha netinha, que tem esse nome: eis a letra e o vídeo:

Laura
Me empreste um sorriso
É o que eu mais preciso
Pra poder viver

Laura
Neste meu bolero
Eu me desespero
Chego a plagiar Coubanacan

Laura
Me empreste um carinho
Venha
Da-me tuas mãos pra gente andar
Curtir, Oh

Laura
Teu comportamento
Tanto atrevimento
Me modificou

Laura
Minha decadência
Sofre a influência
Vou morrer de amor

Laura
Minha decadência
Sofre a influência
Vou morrer de amor

Vou morrer de amor
Vou morrer de amor



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Zeca português

"A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado, Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Em 1994, o Presidente da República Mário Soares tentou de novo condecorar, postumamente, José Afonso com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusou, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado."


Esse trecho da biografia do cantor português José Afonso (leia a íntegra aqui) deve revelar um pouco do caráter desse homem, cuja arte acabo de descobrir no site indicado. Como nasceu em 1929 e só desencarnou, forçado por uma doença degenerativa, em 1987, Zeca, como também era conhecido, teve quase 60 anos para registar uma bela história de vida, emoldurada pela bela música que soube compor, cantar e interpretar. Nova paixão deste Elevador...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Batuque

Eu gosto disto. Muito. Tatit é fera. E ainda tem o auxílio luxuosíssimo de Ná Ozzetti. Vejam. Ouçam. E leiam.


Quanta previsão
A melodia faz
Quantas intenções
Ela anuncia
Nos primeiros tons
Bate o desejo
Mal nos traz a paz
Já é nostalgia
Quanta sensação
De bossa nova e jazz
Quanta precisão
E improviso
Vem alguém e diz
Que é feliz
E não sabia
É que demorou
Para encontrar
A melodia
Quanta vibração
Pra um batuqueiro só
Quantos corações
Ele agita
Com os primeiros dons
Bate um pandeiro
Mal coloca a voz
Ganha o mundo inteiro
Do sertão ao Rio
Sobe o litoral
Ganha algumas ilhas
Do Caribe
Chega a Montreal
Atravessa o mar
Cai em Portugal
Passa por Berlim
Moscou ou Pequim
Ásia Oriental
Olha o barulhão
Que um batuqueiro faz
Olha os corações
Como palpitam
Bate no tom-tom
Feito um pandeiro
Sabe desfilar
Para o mundo inteiro

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Axé


Há pouco tempo - cerca de dois anos atrás - amigos jornalistas discutiam sobre como teria se originado a bem e mal falada "axé music", quem seria sua mãe ou seu pai, recaindo sobre Luiz Caldas e seu fricote o início de um movimento que bem mais que a Tropicália tomou o Brasil de assalto e se exportou... Eu me recordo de que naquela época, aproximadamente 25 anos atrás - meados dos anos 80 -, eu trabalhava na revisão de um grande jornal de Salvador e tanto acompanhava o que se escrevia na redação quanto o que se veiculava nas emissoras de rádio. Lembro-me de ficar impressionado com uma música de letra estranha chamada "Indiado" de autoria de um desconhecido (para mim) Carlinhos Brown, interpretada pela banda de Sérgio Mendes e que Elba Ramalho regravou recentemente. Esse mesmo Carlinhos apareceria logo depois com outra composição que, esta sim, em minha consideração é a gênese da axé music, a carnavalesca "É difícil" (letra abaixo), gravada pela banda Chiclete com Banana. Mas, cá para nós, o criador do axé não foi outro senão o produtor Wesley Rangel, dono da gravadora WR, responsável, pela gravação dos discos dos primeiros cantores a despontar nesse universo musical, Luiz Caldas incluído...

É difícil te encontrar
Como fazer edifício, ah!
É difícil, é difícil

Moça do arpoador
Me atrapalho, me atrapalho
Se no cocorocó do galo
Não der galho, não der galho
Vou voltar pra Salvador
E me devolva o meu canário
Fique com seu papagaio

Me dê a sua mão
E seu amor
E seu amor
Me dê a sua mão e seu amor

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Segundo elevador de fevereiro

Soube esta manhã do falecimento de Whitney Houston, momentos antes de Laurinha e Pedro chegarem aqui em casa. Depois que todos acordaram e minha filha Ananda bradou em alta voz o falecimento, Beatriz quis saber de quem se tratava e Kika tentou cantarolar o talvez maior sucesso da cantora-atriz que ficou famosa, cá para mim, pelo filme "O guarda-costas", de cuja trilha sonora se encarregou. Com  Laura choramingando em meu colo, fiz só para ela minha performance armengada da tentativa de Kika e Laurinha riu no final com meu agudo. Repeti mais duas vezes minha arte até que ela enjoou. Penso que foi isso que aconteceu com Whitney: repetiu tanto a mesma música, a mesma performance, que acabaram enjoando e ela deprimiu-se. Por fim, ela tomou o elevador, deixando para trás o "guarda-costas", em busca, talvez, de melhores salvaguardas...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Comportamento

Copio aqui, do site Bahia Espírita (http://www.bahiaespirita.com.br/noticias/298-destaques-principal/923-e-proibido-amar.html), o teor, na íntegra, da carta de Renato Argolo, sobre recente episódio referente à greve dos policiais militares que semiparalisou Salvador na última semana:

"O general Marco Edson Gonçalves Dias, da 6.ª região militar, foi afastado das funções que exercia de comando das operações em Salvador, onde os policiais militares estão em greve desde a última terça-feira porque abraçou os militares em greve e chorou ao receber um bolo de aniversário. Isso mostra claramente como estamos na contra-mão da felicidade e da paz legítimas.
Será que as divergências têm que ser resolvida com o ódio e com a violência? Claro que não. Num raro momento de luz, onde se abriu uma oportunidade de amolecimento do orgulho e de possibilidade do perdão e entendimento, é considerado um erro uma fraqueza. Pobre humanidade cega no mundo de César, cega com os cargos, títulos, poderes. Debaixo daquela farda há um ser humano, um filho de Deus que pode sim, abraçar, chorar, perdoar, amar.
Parabéns, nosso irmão, Edson Gonçalves Dias, estou feliz em saber que no exército brasileiro tem um ser humano igual a você. Chore, abrace, perdoe, ame que tudo aqui na terra é passageiro e assim você estará a serviço do mais simples, pequeno e humilde dos comandantes, o nosso mestre do abraço, do perdão e do amor, Jesus Cristo.

De um chorão abraçador,
Renato Argolo."

***

Aqui em casa, minha neta, Laurinha, de vez em quando aproxima-se de mim e diz: "Olá, quer abraço?" E é claro que eu quero! Desse modo, a trilha desta postagem não poderia ser outra que não um dos ícones musicais dos chamados "anos de chumbo", quando o País padecia sob a ditadura militar - a composição de Chico Buarque "Jorge Maravilha":

E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
E nada como um dia após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Raio, estrela e luar


"Você é luz." Talvez esta seja a frase que defina Wando, um romântico que levou essa condição à última instância ao cantar o sensualismo explícito de suas letras, atraindo um público feminino ávido de quem compreenda falasse de seus anseios e de alguma maneira traduzisse seus sonhos... Mas o Wando que eu conheci é anterior a essa fase. O Wando de que me recordo é aquele que embalava meus sonhos de jovem apaixonado pela eleita do coração que tinha ido morar em Brasília e nos correspondíamos com alguma frequência. Numa dessas vezes, a cartinha recebida trazia um perfume característico no momento da leitura o rádio ligado fazia Wando entoar as melodia e os versos de "Moça" (letra abaixo), modificando meu estado d'alma e me fazendo também querer, pensando na autora da missiva, "me enrolar nos seus cabelos"... Wando acaba de tomar o elevador, foi cantar em outras esferas, mas em sua homenagem, com toda certeza, muitas mulheres continuarão atirando calcinhas para ele, mesmo em pensamento...

Moça, me espere amanhã
levo o meu coração
pronto pra te entregar


Moça, moça eu te prometo
eu me viro do avesso
só pra te abraçar 


Moça, eu sei que já não és pura
teu passado é tão forte
pode até machucar


Moça, dobre as mangas do tempo
jogue o teu sentimento
todo em minhas mãos


Eu quero me enrolar nos teus cabelos
abraçar teu corpo inteiro
morrer de amor, de amor me perder

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Música e mensagem II

Falemos de Refazenda, composição de Gilberto Gil (letra abaixo). Nessa canção, o compositor talvez só quisesse reverenciar a imponência das árvores , representada pelo abacateiro, e, de quebra, homenagear a importância que os vegetais têm para o Homem. Procurando interpretar a composição do ponto de vista dos ensinamentos do Espiritismo, porém, conseguimos identificar a figura de Deus no abacateiro, cujos desígnios nós acatamos mesmo inconscientemente, uma vez que todos "somos do mato", isto é, pertencemos à natureza divina, copartícipes que somos da obra da Criação, tanto quanto nossos irmãos animais. Nosso compromisso com a evolução - o plano divino em relação à humanidade - nos faz aguardar o tempo da colheita dos frutos do amor e do coração divinos, enquanto "brincamos" no regato, ou seja, experimentamos as sucessivas jornadas terrenas, renascendo da água e do espírito, como ensinou Jesus.
O recolhimento do abacateiro, visto por Gil, pode significar a sensação de afastamento com que os homens, em geral, concebem a Divindade, enxergada como uma entidade sempre no alto a vigiar o comportamento humano. Talvez por isso tão poucos filhos desse Pai logrem algum sucesso na escalada evolutiva, dando lugar a que existam os temporões e dos desvirtuamentos na pele dos tomates e dos mamões, frutos de famílias diferentes, até que haja a integração que só o tempo promove, resultando daí o verdadeiro fruto do abacateiro. Até que se compreenda essa necessidade de "ser abacate", os homens vivenciarão azedumes próprios do tamarindo - o sofrimento - e períodos da doçura da manga.
Nessa trajetória do autoconhecimento, cada vez mais conscientizada, o homem encontrará em Deus o parceiro solitário, posto ser a divindade o objeto da fé, da força que conduz a Humanidade espiritualizada aos píncaros da Luz, numa caminhada sempre mais para a frente e para o alto. É, então, quando o homem se reconhece espírito imortal empenhado na tarefa de progredir intelectual e moralmente. É assim, portanto, que recebemos da divindade, ou da Espiritualidade, se assim preferirmos, todo acréscimo de misericórdia em retribuição a nosso esforço de melhoramento, através do bom relacionamento mútuo. E desse modo nos refazemos em Deus e para Deus...

Abacateiro, acataremos o teu ato
nós também somos do mato
como o pato e o leão
Aguardaremos, brincaremos no regato
até que nos traga o fruto
teu amor, teu coração
Abacateiro, teu recolhimento é justamente
o significado da palavra temporão
enquanto o tempo não trouxer teu abacate
amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro, sabes ao que estou me referindo
porque todo tamarindo tem
o seu agosto azedo cedo
antes que em janeiro doce manga
venha a ser também
Abacateiro, serás meu parceiro solitário
nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro, saibas que na refazenda
tu me ensinas a fazer renda
que eu te ensino a namorar...
refazendo tudo, refazenda
refazenda toda, guaririba...