Por volta do dia 31 de março de 1964 eu estava brincando no quintal de casa numa Feira de Santana que não existe mais fora de minhas lembranças enquanto ouvia no rádio notícias acerca de passeatas, pessoas na rua, um movimento qualquer que em minha meninice era impossível compreender. Nem mesmo as tentativas de um professor ativista no colégio, tempos depois, foi capaz de me abrir a cabeça para os acontecimentos políticos do país, que se debatia sob uma ditadura cruel. Somente quase vinte anos depois, já na faculdade, é que eu tomaria pé da situação e tomaria partido junto com os colegas nas manifestações, em meio à fúria da soldadesca... Mas tudo já é passado, mas um passado que teima em voltar, talvez porque não tenha sido necessariamente exorcizado... Eis que apaixonado como estou pela música do português José Afonso, descubro que este intérprete, tendo vivido as agruras da ditadura salazarista bem como a luta que resultou na Revolução dos Cravos, também cantou o terror experimentado por alguns brasileiros e lusitanos, especialmente Alípio de Freitas, um padre português que foi revolucionário no Brasil (leia mais aqui), cujo nome dá título a uma bela canção de Zeca. Vejam a letra:
Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza
Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com campanheira e a filha
Caiu nas garras da CIA
Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil
Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"
Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas
Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome
Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra
Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista
Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza




