Chico Buarque

"Canta, canta uma esperança / Canta, canta uma alegria / Canta mais..."

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Música e mensagem

Quando era redator na revista Visão Espírita criei uma coluna com o título em epígrafe, na qual esmiuçava letras de composições da MPB relativamente famosas para extrair mensagens de ordem espiritual, o que é possível mesmo que o(s) autor(es) não tivesse(m) essa intenção. Fiz isso com Guilherme Arantes ("Cuide-se bem"), Chico Buarque ("O velho Francisco") e Geraldo Azevedo ("Dona da minha cabeça"), dentre outros. Embora já tenha comentado esse fato aqui, algures, voltei a lembrar disso esta manhã, enquanto lavava a louça e ouvia, na Rádio Educadora da Bahia, Nana Caymmi cantando "Resposta ao tempo", quando pude reparar melhor na letra dessa música de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc (letra abaixo). Prestando atenção, imaginei se tratar de uma comparação entre o tempo e o amor (na pele do sujeito poético, o tal do "eu"). Vejam se não é assim, se o amor não é mais potente que o tempo!

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento
Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo
Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer
Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecer

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Lalalá



Dou a palavra a Chorik, que em seu blog homônimo faz uma interessante reflexão sobre temas musicais, razão pela qual merece abrigo neste Elevador:


"Tive um insight semi-filosófico de difícil analogia. Para um mínimo entendimento é preciso começar lembrando uma confissão de Samuel Rosa (Skank) na qual ele se declara um letrista meia-boca. Sua autocrítica bate no fato de que ele não consegue evitar as interjeições que vira-e-mexe são embutidas nas composições.
Não confundir com as onomatopéias, como em Cigarra (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) onde o cicicicicicicicicicici imita o som do inseto e, portanto, tem sua função. Ou o Ratá-tá tá tá Tatá-rá tá tá Ratá-tá tá tá da metralhadora de Era um garoto como eu que amava os Beatles e os Rolling Stones (M. Luzini e F. Migliacci - Versão de Brancato Júnior). Fagner, em Ave Coração (Clodo/Zeca Bahia), uma linda canção diga-se de passagem, dá uma exagerada em sua imitação de pássaro louco, uma espécie de gralha com dor de barriga, mas digamos que isso também faça parte da interpretação da música. 
O meia-boca que Samuel Rosa se refere pode ser encontrado em Óculos (Herbert Vianna), um dos primeiros hits dos Paralamas do Sucesso - "`Por que você não olha para mim - ô ô / me diz o que é que eu tenho de mal ô ô / Por que você não olha para mim? / Por trás dessa lente tem um cara legal / Oi Oi Oi Oi Oi". Tem uma megahit-brega, do Ovelha, talvez o maior representante desse tipo de construção - "Uou uou Iei iei / Sem você não viverei". Uma rima pobre que funciona.
Há uma outra letra de gosto duvidoso, Faz mais uma vez comigo (César Augusto), sucesso de Zezé Di Camargo e Luciano - "Faz mais uma vez comigo uou uou uou / só mais uma vez comigo". Não bastasse o triste pedido, fica a dúvida: que significa esse "uou uou uou", seria o que se quer fazer? Logicamente que não. O uou uou uou é só uma forma de completar a música, encaixar a letra nela, fazer a liga. Não seriam tecnicamente sequer interjeições, já que não exprimem nada, mas se suprimidas, perde-se o tchan.

Entendido isso, penso que nem tudo na vida da gente precisa fazer sentido, e às vezes precisamos mesmo é de um uou uou uou."


Chorik não se lembrou mas um atilado crítico desse simplismo musical tão ao gosto do mercado, o baiano Tom Zé, elaborou um belíssimo repúdio à disseminada utilização desse recurso, em composição necessariamente batizada de "Na parada de sucesso". Vejam a letra:


Em terceiro lugar vem o nanã de naná
em segundo lugar vem o lerê-le-iê
mas em primeiro lugar, malandro
vem o la-ra-la-iá.
Com o nanã de naná

quando a noite cair
eu apanho a coberta
e na hora certa
o meu bem vai dormir.
Mas o le-re-lei-ê

é pra gente mais fina
coisa quase grã-fina,
assanha na festa
e não vai na seresta.
Mas em primeiro lugar

vem o Messias desta era
que é meu la-ra-la-iá. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Trinta

Este blog já conta com 30 seguidores - eis aí um presente de Natal considerável! E tudo indica que o 30, número redondo cheio de significados esotéricos - a partir do cabalístico e pitagórico 3 -, vai me acompanhar ao longo de 2012, até mesmo em seus desdobramentos, pois é possível chegar aos 39 no próximo dezembro. Esse número remete-nos à juventude e a uma fase em que se começa a se despedir da época mais dourada da vida para se condicionar à etapa das responsabilidades de adulto. Marcos Valle cantou isso muito bem em sua composição "Com mais de 30", que a intérprete Cláudia tornou famosa. Eis a letra:

Não confie em ninguém com mais de trinta anos
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta 
Oh mais de trinta
Não confie em ninguém com mais de trinta ternos
Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos
O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida
A sua vida
Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço
Eu me desloco no tempo e no espaço
Passo a passo, faço mais um traço Faço mais um passo, traço a traço
Sou prisioneiro do ar poluído
O artigo trinta eu conheço de ouvido
Eu me desloco no tempo e no espaço
Na fumaça um mundo novo faço Faço um novo mundo na fumaça
Não confie em ninguém...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Gaiola

Ganhei um passarinho ontem à noite. "Ganhei" é modo de dizer, porque se trata de uma incumbência (nome que dei ao passarinho, um canário do qual ainda não ouvi o canto): um vizinho viajou para passar as festas no interior e só retorna no terceiro dia de 2012, de modo que viu a mim como a pessoa mais indicada para cuidar do que retém sem ser propriamente dele, a não ser a gaiola. Ele, o vizinho, talvez não saiba que gosto muito de pássaros - desde que soltos, em seu ambiente natural. Então, por que eu? Uma de minhas filhas, conhecedora de minhas impressões, sugeriu deixar a gaiola aberta... Não, não é assim que devemos proceder com o que não é "nosso". Esta manhã, então, dispus-me a cuidar do passarinho, o que se resume a limpar a gaiola e abastecer os vasilhames de água e alpiste. Quando minha filha acordou e me viu na tarefa, perguntou-se por que a realizava assim tão naturalmente. Disse a ela que atuava de acordo com minha postura religiosa perante a vida: Deus nos chama para aprimorar sua obra e algumas circunstâncias nos levam a operar como carcereiros, cuidando o melhor possível dos que se encontram prisioneiros. E, guardadas as devidas proporções, é assim que nos sentimos em relação ao próprio corpo, uma preciosa gaiola que precisamos manter em condições de manter o "prisioneiro", a alma imortal que, por isto mesmo, necessita de cuidados tão ou mais importantes que aqueles proporcionados ao corpo físico, para que um dia, em liberdade, ela possa voar alto, bem alto. É então que Milton Nascimento, cantando "Anima" (alma, em bom latim), vem ilustrar esta postagem. Vejam a letra:


'Alma vai além de tudo que o nosso mundo ousa perceber
Casa cheia de coragem vida tira a mancha que há no meu ser
Te quero ver, te quero ser ... alma'
Lapidar minha procura toda trama
Lapidar o que o coração com toda inspiração
Achou de nomear gritando... alma
Recriar cada momento belo já vivido e mais,
Atravessar fronteiras do amanhecer,
E ao entardecer olhar com calma e então
Alma vai além de tudo que o nosso mundo ousa perceber
Casa cheia de coragem vida tira a mancha que há no meu ser
Te quero ver, te quero ser ... alma
Viajar nessa procura toda de me 'lapidar'
Nesse momento agora de me recriar
De me gratificar, de custo alma eu sei
Casa aberta onde mora o mestre
O mago da luz onde se encontra o tempo
Que inventa a cor, animará o amor onde se esquece a paz
Alma vai além de tudo que o nosso mundo ousa perceber
Casa cheia de coragem vida 'todo afeto' que há no meu ser
Te quero ver.... alma
Te quero ser .... alma
'Te quero ser .... alma
Te quero ser .... alma
Te quero ser ....'

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Votos

"Quando chega o Natal, tempo de honrarmos a Nosso Senhor Jesus Cristo, é o tempo - existem pesquisadores escutando a comunicação com as árvores, os animais - em que a matança é imensa; escolhemos a classe dos perus. Se eles pudessem, corriam de nós mil léguas, quando falássemos o nome de Jesus..."
O comentário, recolhido em março de 1983 pela pena de Carlos Baccelli, é do médium Chico Xavier e com ele  inicio esta postagem à guisa de mensagem "natalina" para os seguidores e visitantes eventuais deste blog, revelando, nas entrelinhas, minha antiga, talvez atávica difícil relação com a festa desta época. Não farei apologia do excesso de consumo próprio da ocasião, mas prefiro trilhar pelo lado oposto, o da escassez - até mesmo de afeto - que muita gente experimenta mais acentuadamente nos festejos comemorativos do aniversário de Jesus, que em verdade aconteceu em março, segundo os exegetas (o peixe não é o símbolo do Cristianismo por acaso, isto é, não apenas por causa da multiplicação dos pães e peixe, não só porque o Cristo teve pescadores a seu lado, os quais estavam incumbidos de serem também pescadores de almas...). Nesse aspecto, para não fugir à tradição deste blog, recordo um episódio da infância e adolescência em Feira de Santana referente à época que sempre me provocou uma indefinível tristeza, só hoje explicada e compreendida. Então, aproximando-se o Natal, macambúzio me tornava e pensava que a melhor forma de passar o Natal - o que eu faria somente quando eu crescesse (desnecessário dizer que jamais tive ocasião para isso) - era ouvindo (boa) música solitariamente num quarto escuro. Músicas que falassem, mesmo incompreensivelmente, de tempos imemoriais, da vida entre povos exóticos, das alegres escaramuças entre nativos norte-americanos antes da conquista europeia... músicas como esta "One more a cup of coffee", de Bob Dylan:


Your Breath is sweet, your eyes are like
Two jewels in the sky
Your back is straight your hair is smooth
On the pillow where you lie.
But I don't sense affection
No gratitude or love.
Your loyalty is not me but to the stars above
Chourus :
One more cup of coffee for the road.
One more cup of coffee for I go,
To the valley below.
Your daddy he's an outlaw
And a wanderer by trade.
He'll teach you how to pick an choose
And how to throw the blade.
And he oversees his kingdom
So no stranger does intrude.
His voice it trembles as he calls out
For another plate of food
Chorus
Your sister sees the future
Like your momma and yourself.
You've never learned to read or write
There's no books upon your shelf.
And your pleasure know no limits
Your voice is like a meadow larks.
But your heart is like an ocean
Mysterious and dark.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O elevador sobe outra vez

O elevador levou mais pessoas boas lá pra cima. Desta vez, foram três de vez: o ator Sérgio Britto, o carnavalesco Joãosinho Trinta e, no que nos interessa, a cantora caboverdiana Cesária Évora, por quem eu nutri um carinho todo especial desde que conheci seu disco "Cabo Verde", em cuja capa me encantaram os dedos gordinhos dessa gordinha simpática que cantou seu país, sua cultura e sua alegria triste própria da herança portuguesa naquela ilha encravada nas costas africanas, em pleno Atlântico - para ela, um paraíso. Devido a esse amor, ganhei dos filhos, certa vez, como brinde de aniversário, um DVD de Cesária, um belo trabalho com tomadas até mesmo no Rio de Janeiro, onde ela gravou uma participação de Caetano Veloso, apresentando uma cena que me pareceu por demais depressiva: Cesária vaga solitariamente pela orla carioca, primeiro a bordo de um automóvel e depois a pé, tendo por companhia o inseparável cigarro. No estúdio, a sensação de abandono também me invade, ao ver a maior voz de Cabo Verde "esquecida" numa cadeira, ainda fumando, e só sendo "lembrada" para responder a uma pergunta do tropicalista santamarense, que não entendeu a poesia de um verso da canção "Regresso" (letra abaixo). Confesso que fiquei com um pouco de raiva de Caetano naquele instante, julgando que visitantes devem ser bem tratados por seus cicerones. Mas o fato é que Cesária regressou para seu verdadeiro lar e Cabo Verde será agora, talvez, a melhor lembrança de sua passagem pela Terra. Fica nossa homenagem despretensiosa.

Mamãe velha venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão
É um bater de amigo que
vibra dentro do meu coração


Venha Mamãe velha venha ouvir comigo
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou, mantenha
e bate dentro do meu coração


A chuva amiga mamãe velha a chuva
Que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha a ilha toda
Em poucos dias já virou jardim


Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
E a terra agora é mesmo cabo verde
É a tempestade que virou bonança


Venha comigo mamãe velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou, mantenha
e bate dentro do meu coração


A chuva amiga mamãe velha a chuva
Que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha a ilha toda
Em poucos dias já virou jardim


Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
E a terra agora é mesmo cabo verde
É a tempestade que virou bonança

domingo, 11 de dezembro de 2011

Presença

Na próxima semana vou, com um grupo de amigos, visitar, mais uma vez, um asilo de idosos. Já estivemos lá outras vezes e nessas oportunidades é possível cativar e sermos cativados por alguns olhos e corações. E penso neles quando imagino nos outros ou se sobrevém um sentimento de solidão que logo se desfaz. Saber que há alguém que nos espera - e entre aqueles queridos velhinhos há pelo menos dois que ficam contentes ao me ver lá - nos faz menos sozinhos e levar nossa companhia ou a simples presença a alguém que padece naturalmente as agruras da solidão também resulta num sensação de completude indescritível. Está aí a razão pela qual o Espírito Joanna de Ângelis, mentora de médium Divaldo Franco, diz, num de seus livros, que não se sente solitário quem é solidário. É que as almas se refestelam no contato com outras, suas irmãs. Ninguém convive bem com a solidão, ainda que por vezes a chamem de solitude, que é o instante da vida de cada um em que a própria presença se basta, como nos momentos de meditação. Mas queremos nos fazer notados e, seja como for, há sempre alguém prestando atenção em nós. Talvez por isso Jay-Jay Johanson peça, numa de suas composições (vídeo abaixo) que se "diga às garotas que ele está de volta à cidade". E o clip, sintomaticamente, é rodado na cela de uma prisão...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Voos

Uma amiga está passando pelo que os psicólogos chamam de síndrome do ninho vazio, situação que costuma ocasionar um quadro de depressão. Ela diz que está triste porque seus filhos já alçam voo: um deles bateu as asas para longe, indo morar e trabalhar em outro estado; o outro casa-se, quebrando, de certo modo, os vínculos com a família de origem e construindo a própria experiência a dois, a exemplo dos pais. Minha amiga declara-se triste e certamente está chorosa, derramando lágrimas em silêncio e às ocultas, o peito transbordando de dor, levando-a a dizer que, neste momento, tudo que lhe satisfará é um colo que a sustenha. Não faz muito tempo, aqui em casa observamos algo semelhante: quando nosso filho decidiu morar sozinho e a filha mais velha logo em seguida casou e foi morar fora, Beatriz experimentou essa síndrome, embora ainda tívessemos presente a filha caçula. A situação só melhorou quando os netos vierem encher mais uma vez a casa... Penso que minha amiga se console antevendo seu momento de, ao lado do marido, apertar junto a seu coração a criaturinha que, sendo seu neto, vai preencher seu lar com novas e mais perenes alegrias. Não sei por qual razão, talvez pela referência a casamento, cuja evolução pressupõe também movimentos de sístole e diástole, como em todo coração em bom funcionamento, lembrei-me de Marília Barbosa e a música de Vital Farias "Caso você case". Eis a letra:


Caso você case,
Não escreva a nota,
Não destrave a porta,
Não esteja morta,
Não estrague a horta.
Faca que não corta,
Mulher semi-morta,
Sem cara, sem fala, sem bala,
Sem hora, sem ala-á.
É necessário tudo, mudo, surdo, absurdo,
É necessário nada, fada, fanada, nada em fá,
É necessário nada, tudo, mudo, surdo, absurdo,
Nada em fá-fazer,
Caso você case,
Não escreva a nota no jornal,
Não destrave a porta do quintal,
Não esteja morta,
Não estrague a horta.
Faca que não corta,
Mulher semi-morta,
Sem cara, sem fala, sem bala,
Sem hora, sem ala-á.
É necessário tudo, mudo, surdo, absurdo,
É necessário nada, fada, fanada, nada em fá,
É necessário nada, tudo, mudo, surdo, absurdo,
Nada em fá-fazer.
Caso você case,
Não escreva a nota musical,
Não destrave a porta do hospital,
Não esteja morta,
Não estrague a horta.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ventania

Subo a ladeira e o vento começa a zumbir em volta de meus ouvidos. Ouço o vento e penso nele. Neles. São muitos os ventos. Há o vento que simplesmente sopra, há o que canta, o que zumbe, o que cicia ou sussurra... Há o vento que assobia no telhado, cantado por Fernando Mendes; há o que atende ao chamado de Dorival Caymmi; há o que balança os coqueiros de Mestre Ambrósio; há o que em maio acompanha a Rainha dos Raios; há o que leva a pluma pelo ar na felicidade de Vinicius... Mas o vento não só vai como vem e costuma trazer "notícias de lá", mesmo em meio ao mais angustiante silêncio.