Chico Buarque

"Canta, canta uma esperança / Canta, canta uma alegria / Canta mais..."

sexta-feira, 16 de março de 2012

Saudade (sempre ela)

Insone - não propriamente, pois o fato é que acordei às 3 e meia da madrugada e não mais conciliei o sono -, ligo a TV e paro, sem opções, no canal NHK que exibe um episódio do campeonato japonês de sumô. Fico vendo durante alguns minutos, achando que estou entendendo o que o narrador está falando (um lapso de memória ancestral, palingenesia?) - depois me dou conta de que não compreendo japonês - apenas porque tenho a atenção voltada para um aspecto curioso: o sumô não é uma luta, pois tudo que os volumosos combatentes provam no ringue de areia são a força e a destreza suficientes para empurrar o oponente para fora do círculo. Antes disso, ficam se estudando e fazendo trejeitos para nós incompreensíveis. Mas isso não é mais curioso do que as pessoas diretamente envolvidas no espetáculo - podemos chamar assim? - estarem trajando roupas típica do Japão feudal, enquanto na assistência todos usam trajes ocidentais - e ao observar esse fato cheguei à (falsa?) conclusão de que o sumô é uma cerimônia quase religiosa como tantas outras cultivadas no País do Sol Nascente. E ao relatar estas minhas impressões recordo, para fazer ponte com o título desta postagem, da música de Os Incríveis "Kokorono-niji", que alegrou algumas tristezas de minha adolescência em Feira de Santana, quando já sentia saudade de algo que só aconteceria no futuro que viraria presente...

Saudade é a lembrança
Do amor que um dia deixei ali
Saudade é nostalgia
Do Japão que nunca esqueci

Boneca linda, dourada
O sol que nasce vem me contar
Que nos teus olhos iluminou
duas pérolas a rolar

Se você não me esqueceu
Sei que também vou lembrar
Do abraço que te dei, meu bem
no momento de voltar

Saudade é a lembrança
Do amor que um dia deixei ali
Saudade é nostalgia
Do Japão que nunca esqueci

{itsuka anata to musubareta hi ni}
{dakishime dashimete amaete ii no ne}
{watashi no kokoro ha namida de yureru kedo}
{kanashi chouchou ha oozora he kaeru}

Saudade é nostalgia do Japão que nunca esqueci...
{kanashi chouchou ha oozora he kaeru}

segunda-feira, 12 de março de 2012

Crônica da felicidade

Quando trabalhava no jornal A Tarde eu costumava publicar crônicas na extinta coluna Ultraleve, voltada para a colaboração literária do pessoal da Redação. O trabalho transcrito abaixo, intitulado "Felicidade", que ganhou uma bela ilustração realizada pelo desenhista (e também pintor) Setúbal, é uma homenagem a minha filha Ananda, cujo nome, em sânscrito, significa "bem aventurança", que vem a ser felicidade, pois não?

*********

O que é, o que é? Uma mulher ficou doente mas nenhum médico conseguia curá-la. O que é latinha?
- Catapora.
- Sarampo.
- Dor de barriga.
- Todo mundo errou. Latinha é uma lata pequena!
- Ah, meu pai, também você só faz pergunta difícil... Faça uma que eu sei, assim: por que a Xuxa não pega AIDS?
- E por que é que a Xuxa não pega AIDS?
- Porque ela diz "beijinho, beijinho e tchau, tchau"!

Eis Ananda, a felicidade em pessoa, há cinco anos existindo entre nós. É certo que ela demorou um pouquinho para perceber que era a própria felicidade (dos pais, principalmente, em corujice ad aeternum), tanque que não respondia como esperado quando lhe perguntávamos:
- Você é feliz?
- Não, sou Ananda.

Nessa época, ela mal tinha aprendido a falar, o que também demorou e só aconteceu algum tempo após os primeiros passos serem dados com firmeza. Sim, nenhuma precocidade, tudo no tempo certo - ou pouco depois - e Ananda conquistou seu lugar no mundo, entre Caio e Shirley. Para a irmã mais velha, a caçulinha era algo mais que uma boneca, com quem ela brincava dinamicamente, ambas se divertindo com as peripécias mútuas. Já o irmão, mais rebeldezinho desde nascença (talvez por ter vindo á luz em meio ao espoucar de foguetes e bombas de São João), reservava-se o direito de perder a paciência com Ananda sempre que solicitado a melhor cuidar delazinha.
- Caio, por que você não ensina sua irmã a falar?
- Ah, mãe, ela é burra!

A "burra" nem tinha dobrado o 12.° mês e só balbuciava, por enquanto. E foi de um momento pra o outro que ela começou a virar vassoura, sem que percebêssemos, embora alguns sinais evidentes já surgissem: a vasta cabeleira anelada que emoldurou seu rosto luminoso, com os cachos dourados despencando em cascata até os ombros. Com pouco mais de um ano ela teve conjuntivite e os olhos como que perderam o brilho, felizmente por breve tempo, ainda assim o bastante para denotar a fragilidade da jóia que tínhamos em casa. Uma infecção intestinal, tempos depois, fê-la emagrecer e, curada, pareceu que tomara "chá-de-coqueiro", pois desatou a crescer, sobrepujando o irmão e alcançando a irmã mais velha.

Os cabelos, então, já tinham sido tosados pela mãe, com a desculpa de que os anéis embaraçavam e não permitiam o penteado - a avó até hoje não perdoa essa "mãe malvada". Com o corte, os fios escureceram e hoje são acastanhados. Também os cachos se rebelaram e agora só se comportam através de cuidadosas escovadelas. A independência dos cabelos impera, porém, e eis Ananda, finalmente, transformada em vassoura.

Sua beleza translúcida e sua felicidade - dengo de gato, vive enroscada, como apêndice, no pai, seu xodó - cativam e uma vez lhe arranjaram um namoradinho, um pivete um ano mais novo que ela: Saulo. Menino do interior, na primeira visita à capital após o rebuliço do "namoro", Ananda fez questão de jogar por terra as pretensões do moço:
- Dizem que há pessoas feias por fora e bonitas por dentro, mas você é feio por fora e horrível por dentro!

Eis Ananda, que as divindades quiseram Muniz, para alegria e festa de cinco corações (o dela incluso), que numa tarde de maio proclamou ao mundo sua vinda mais que bem vinda. Um filhote de homem que o tempo faria leoa, a loura juba crescendo ainda cedo. Ferinha indomável, logo transmutou-se numa tigresa que ainda o é. E, como os felinos da raça, dorme cedo e muito, após a labuta diária, a faina, a caça. E é desrespeitando seu sono que transbordo sobre ela meu carinho de pai, embora já não obtenha respostas à antiga indagação, desde que Ananda era um bebê que dormia guarnecida de fraldas:
- Ama papai, ama?
E ela, talvez em sonho, dormindo respondia:
- Ama.

*********

Como ilustração musical que recorda um tempo idílico, deixo aqui a "Felicidade" de Lupicínio Rodrigues:

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora

Lá onde eu moro tem muita mulher bonita
Que usa vestido sem cinta e tem na boca um coração
Cá na cidade se vê tanta falsidade
Que a mulher faz sacanagem até dentro de pensão

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora

A minha casa fica lá detrás do mundo
Mas eu vou em um segundo quando começo a cantar
E o pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora

Na minha casa tem um cavalo tortilho que é irmão do que é filho daquele que o Juca tem
Quando eu agarro seus arreiros e lhe encilho
Sou pior que limpa trilho e corro na frente do trem

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora

quinta-feira, 8 de março de 2012

Na pressão

Algumas mulheres sofrem horrores na menopausa, enquanto outras simplesmente adoecem. É o caso de minha mulher, que atualmente vem superlativizando sua hipertensão por conta do climatério, que a pegou desprevenida. Sem saber e sem querer preservar suas condições de higidez, durante muito tempo fez somente o que quis de seu corpo e de sua mente - sua alma! -, comendo, bebendo e ingerindo (isto, acreditem, é diferente de comer e beber, embora possa parecer a mesma coisa), tanto quanto pensando, sentindo, falando e fazendo o que não devia, ou, no mínimo, não precisava. O resultado, agora, são os picos de pressão que ela tem experimentado desde o carnaval, responsáveis por duas idas emergenciais a um posto de saúde, onde foi bem atendida, diga-se, e a preocupação em estar constantemente sob os olhares atentos dos esculápios, que a entopem de medicamentos, além do medo de morrer a qualquer momento. A qualquer momento, como reza a música de Chico Buarque, pode-se ver "emergir o monstro da lagoa" ("Cale-se") e, no meu caso, é de temer um AVC que a deixe paralisada. Quando criança, eu ouvia meus pais dizerem que quem não ouve aquieta ouve coitado e desse modo eu, na medida do possível, procuro me cuidar e alertar meu pessoal para essa necessidade. Mas cada um é um, é forçoso reconhecer, e embora os conselhos amigáveis - quem avisa amigo é, não é assim? -, cada qual é livre para fazer as experiências que julgar mais convenientes, até que soa a sirene alarmista e fomos forçados a pisar no freio. Ah!, se desde cedo pudéssemos ouvir o que Guilherme Arantes nos diz em sua composição "Cuide-se bem"... Vejam a letra e o vídeo:

Cuide-se bem!
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver
De uma forma ou de outra
É uma arte, como tudo...

Cuide-se bem!
Tem mil surpresas
A espreita
Em cada esquina
Mal iluminada
Em cada rua estreita
Em cada rua estreita
Do mundo...

Pra nunca perder
Esse riso largo
E essa simpatia
Estampada no rosto...

Cuide-se bem!
Eu quero te ver com saúde
E sempre de bom humor
E de boa vontade
E de boa vontade
Com tudo...

Pra nunca perder
Esse riso largo
E essa simpatia
Estampada no rosto...



quinta-feira, 1 de março de 2012

O elevador sobe em março...


O mês mal começou e o elevador continua em movimento para o outro plano da existência, levando, desta vez, o cantor italiano Lucio Dalla. A Itália, desde que Nero, o imperador de funestas lembranças, empunhou a lira, tem dado ao mundo grandes vozes, a maioria delas ainda desconhecida do grande público, mais afeito ao que as gravadoras rotulam como "popular". De formação jazzística, Dalla ficou mais conhecido com a composição "Caruso", tornada famosa por um peso pesado da canção lírica, Luciano Pavarotti, que tomou o elevador faz algum tempo...


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Certa época


Por volta do dia 31 de março de 1964 eu estava brincando no quintal de casa numa Feira de Santana que não existe mais fora de minhas lembranças enquanto ouvia no rádio notícias acerca de passeatas, pessoas na rua, um movimento qualquer que em minha meninice era impossível compreender. Nem mesmo as tentativas de um professor ativista no colégio, tempos depois, foi capaz de me abrir a cabeça para os acontecimentos políticos do país, que se debatia sob uma ditadura cruel. Somente quase vinte anos depois, já na faculdade, é que eu tomaria pé da situação e tomaria partido junto com os colegas nas manifestações, em meio à fúria da soldadesca... Mas tudo já é passado, mas um passado que teima em voltar, talvez porque não tenha sido necessariamente exorcizado... Eis que apaixonado como estou pela música do português José Afonso, descubro que este intérprete, tendo vivido as agruras da ditadura salazarista bem como a luta que resultou na Revolução dos Cravos, também cantou o terror experimentado por alguns brasileiros e lusitanos, especialmente Alípio de Freitas, um padre português que foi revolucionário no Brasil (leia mais aqui), cujo nome dá título a uma bela canção de Zeca. Vejam a letra:

Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com campanheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas

Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Terceiro elevador de fevereiro

E lá se vai Pery Ribeiro, para engrossar o coro da Bossa Nova no Além... Com alguma certeza, penso que Flávio Cavalcanti esteja contente com sua chegada. Pery era habitué do Programa Flávio Cavalcanti, que eu assistia nos anos 70/80. Meu amigo A. C. Limongi, produtor musical dos bons e responsável pelos célebres encontros entre Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai; Elomar, Turíbio Santos e Xangai; Elomar e Arthur Moreira Lima, contou-me certa vez um episódio passado nos bastidores de um dos programas apresentados por Flávio Cavalcanti - "Um instante, maestro!". Segundo Limongi, muitos cantores temiam se apresentar ali porque Flávio criticava impiedosamente certos discos e músicas, quebrando no ar os "bolachões" (discos LP) e compactos, logo após a análise de um corpo de jurados. Numa dessas vezes, um dos convidados era o cantor baiano Waldick Soriano, que fazia sucesso com "Eu não sou cachorro não". Flávio não gostava de músicas consideradas "bregas" e era certo que o disco de Waldick também seria quebrado. Mas antes do programa entrar no ar, Waldick - diz Limongi - avisou Flávio Cavalcanti: "Se você quebrar meu disco, eu lhe acabo no pau!". O resultado foi que Waldick cantou e o disco não foi quebrado. Quanto a Pery Ribeiro, vamos homenageá-lo relembrando sua música "Laura", que por sua vez homenageia minha netinha, que tem esse nome: eis a letra e o vídeo:

Laura
Me empreste um sorriso
É o que eu mais preciso
Pra poder viver

Laura
Neste meu bolero
Eu me desespero
Chego a plagiar Coubanacan

Laura
Me empreste um carinho
Venha
Da-me tuas mãos pra gente andar
Curtir, Oh

Laura
Teu comportamento
Tanto atrevimento
Me modificou

Laura
Minha decadência
Sofre a influência
Vou morrer de amor

Laura
Minha decadência
Sofre a influência
Vou morrer de amor

Vou morrer de amor
Vou morrer de amor



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Zeca português

"A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado, Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Em 1994, o Presidente da República Mário Soares tentou de novo condecorar, postumamente, José Afonso com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusou, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado."


Esse trecho da biografia do cantor português José Afonso (leia a íntegra aqui) deve revelar um pouco do caráter desse homem, cuja arte acabo de descobrir no site indicado. Como nasceu em 1929 e só desencarnou, forçado por uma doença degenerativa, em 1987, Zeca, como também era conhecido, teve quase 60 anos para registar uma bela história de vida, emoldurada pela bela música que soube compor, cantar e interpretar. Nova paixão deste Elevador...